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Debate na Rádio Voz Portugal - Apresentação pessoal e intervenção sobre o ensino A maioria da nossa comunidade começou a emigrar para a Bélgica nas décadas de 60 e 70 e demonstrou desde o início dar uma atenção particular ao ensino do português. As iniciativas da Associação de Pais, após o 25 de Abril, foram determinantes e permitiram uma implementação respeitável do ensino da língua portuguesa na Bélgica, nomeadamente com a criação de turmas infantis, coisa que não acontece em muitos outros países onde se concentram as comunidades de portugueses. É notável observar que grande parte dos jovens que compõem a dita “segunda geração” tenha um conhecimento respeitável da língua de Camões, principalmente fruto das aulas dependentes da Coordenação Pedagógica presente na Bélgica.
No entanto, a terceira geração e aquelas que seguirão necessitam da mesma qualidade de ensino que foi fornecido até agora para que os luso-descendentes continuem ligados à sua língua de origem, proporcionado-lhes assim a possibilidade de desfrutar de várias vantagens e necessidades: poder comunicar sem qualquer problema com os seus familiares aquando das férias anuais ou mesmo num hipotético regresso definitivo a Portugal ou integrar um mercado de trabalho, em permanente crescimento, que envolve hoje na Lusofonia mais de 200 milhões de pessoas. Mas, talvez, a ligação emocional que existe entre o conhecimento da língua e Portugal seja o argumento mais forte: “A minha lingua é a minha pátria”, disse Fernando Pessoa, e nada nos pode tirar o infinito orgulho relativo à nossa história, cultura e identidade.
Proximidade e comunicação
Muitos portugueses sabem que os seus filhos podem ter acesso ao ensino de português na Bélgica e, por isso, inscrevem naturalmente os jovens nas escolas que vão ensinar a língua e cultura portuguesas. Com grande sentido de responsabilidade ou um amor incondicional à pátria, estes pais exercem por iniciativa própria um acto de cidadania e de patriotismo exemplar. Nos outros casos, alguns pais pensaram na questão mas poseram-na de lado, por falta de tempo ou outros motivos. Outros ainda nunca tiveram sequer alguma informação sobre este serviço. Para estes últimos, a Lista da Comunidade apresenta uma proposta muito clara: a comunicação.
Este ponto é alvo de grande importância neste programa eleitoral e será várias vezes referido. No último ano, cerca de 900 alunos seguiram aulas no ensino integrado ou paralelo de português mas em 2000, chegaram a estar inscritos 1 400 jovens e tendo em conta que formamos uma comunidade de 40 000 portugueses na Bélgica, não é ilusório pretender que haja cada vez mais inscrições.
Em Junho de 2007, durante a festa dos comerciantes de Saint-Gilles, Pedro Rupio, candidato efectivo da Lista da Comunidade, organizou uma campanha de sensibilização e de promoção do ensino de português na Bélgica, com a associação que criou, a “Força Luso-Descendente”. A ideia foi de apostar na presença de milhares de compatriotas num sítio definido para promover o ensino da língua portuguesa. Felizmente e como tem sido habitual, a Coordenação mostrou-se disponível para uma colaboração concreta e demonstrou claramente uma satisfação muito grande pela ideia, provavelmente também pela iniciativa vir dum antigo aluno. Duas semanas antes do evento, 200 cartazes foram colocados em locais frequentados pelos emigrantes portugueses: associações, restaurantes, mercearias, cafés,... É aliás louvável a aceitação e colaboração destes para esta iniciativa. Desses cartazes, 100 eram únicamente dedicados à promoção do ensino de português para as crianças. Mais ainda, após vários diálogos constructivos com os representantes da associação dos comerciantes de Saint-Gilles, foi-nos aceite a colocação duma tenda para a Coordenação Pedagógica da Embaixada e a associação Força Luso-Descendente, base da iniciativa. O resultado foi além do esperado. Muitos pais criaram ligações com os professores, o que lhes permitiu obviamente ter um maior conhecimento do sistema escolar que pode ser proporcionado aos seus filhos. Concretamente, mais de 50 alunos foram inscritos só naquele dia, sem contar aqueles que se inscreveram nos dias que seguiram, fruto directo da iniciativa tomada. Esta iniciativa é, como já foi referido, um ponto essencial do programa da Lista da Comunidade que deverá ser repetido regularmente, para colocar à disposição dos pais todos os elementos e informações necessárias para saberem porquê e de que modo podem inscrever os filhos na escolas portuguesas.
Diálogo com as autoridades competentes
A “história” do ensino de português na Bélgica sofreu uma situação delicada em 2001: o fim das aulas de português na escola da Rue du Nid. Aquela escola representava imenso para os alunos e professores que a frequentavam e é por essa razão que a transferência feita para a escola de Anderlecht foi acompanhada com tristeza e alguma revolta. Por x razões, os jovens deixaram um espaço que consideravam seu, localizado no coração do bairro português de Ixelles e possuidor de condições de estudo óptimas. A escola de Anderlecht representava o oposto total: é uma escola fria situada num bairro difícil sem qualquer ligação com a diáspora portuguesa. Nem as condições mínimas eram preenchidas, devendo os professores cancelar várias vezes as aulas por falta de aquecimento. O resultado foi evidente: os corredores desertificaram-se muito rapidamente. A identidade tão brilhante que tinha a escola portuguesa passou a ser aliada à tristeza. Aliás, foi a partir desse ano que o núnero de alunos inscritos decresceu continualmente até este ano.
É primordial possuir condições de trabalho razoáveis para desenvolver uma certa motivação que levará o aluno a assistir às aulas de português em horário paralelo. Desde então, os jovens deixaram de ter aulas na escola de Anderlecht mas é com uma atenção muito especial que o próximo conselheiro da comunidade deverá acompanhar a situação e as condições de trabalho dos alunos luso-descendentes. Por outro lado, deve-se manter um contacto regular e diplomático com as entidades belgas responsáveis, mostrar o quanto é importante para nós voltar para as salas de aulas da Rue Du Nid.
O mesmo deve evidentemente acontecer perante as autoridades portuguesas, embora o tipo de contacto tenha de ser diferente. No verão de 2007, fui alertado que pela primeira vez, o Ministério da Educação recusou, após pedido da Coordenação do Ensino, a criação de uma nova turma infantil. Tendo um encontro previsto com o secretário de Estado das Comunidades, durante o X° Encontro Europeu de Luso-descendentes, do qual representei a Bélgica, aproveitei para entregar em mão própria uma carta que denunciava essa lamentável situação no nosso ensino. Felizmente, o Governo português recuou e mudou a sua posição permitindo assim a criação da turma infantil.
A possibilidade de aprender a língua portuguesa no etrangeiro é um dos bens mais preciosos da nossa comunidade. Devemos esse privilégio à luta dos pais aquando das suas chegadas nos países de acolhimento e temos o dever de o proteger do melhor que podemos apesar de ser referido na Constituição como uma obrigação do Estado. Para o ano de 2008, o Governo dedicou um orçamento de 38 milhões de euros para o ensino de português no estrangeiro, ou seja menos de 65 centimos mensais investidos em cada emigrante português. Ridículo e patético! Enquanto o Governo vir no ensino de português uma despesa e não um investimento essencial para a economia nacional e a divulgação da nossa língua e cultura, então será uma nação inteira de 15 milhões de portugueses que continuará a perder continuamente por causa dessa incrível falta de visão.
O ensino integrado consiste em disponibilizar aos jovens a aprendizagem da língua portuguesa em horário integrado nas escolas belgas que frequentam, em oposição ao ensino paralelo que decorre principalmente às quartas-feiras e sábados. Existem várias escolas belgas situadas em bairros de Bruxelas onde estão presentes fortes concentrações de portugueses o que é uma excelente oportunidade para propor às escolas em questão que dêem aos filhos de portugueses a possibilidade de terem aulas de português. Por razões logísticas, é impossível para certas famílias acompanhar os seus filhos no ensino paralelo. O ensino integrado mostra-se assim como uma aposta interessante que não se pode de todo esquecer. Para isso, o factor “diálogo” continua a ser determinante para com as autoridades belgas (comunas e escolas). Só com uma clara determinação poderemos obter das autoridades belgas aquilo que pretendemos. Por outro lado, é preciso sensibilizar os jovens sobre as vantagens e a importância que existe de frequentar o ensino integrado de português. Campanhas de promoção serão então imprescindíveis.
Este é um ponto que merece uma atenção particular da candidatura da Lista da Comunidade embora não seja um assunto muito debatido no seio da nossa comunidade. Mas é preocupante ver o número muito reduzido de alunos que seguem o ensino secundário do ensino de português. No 10°, 11° e 12° ano, são apenas cerca de 40 os alunos que frequentam as nossas escolas portuguesas mas o fenómeno começa mais cedo, principalmente a partir do 6° ano onde se começa a ressentir uma diminuição na assiduidade dos jovens nas aulas. Algo que incentivou sempre os jovens luso-descendentes eram as viagens organizadas. Na Bélgica ou em Portugal, essas excursões pedagógicos são importantes para o fortalecimento das relações entre alunos e professores, dando-lhes obviamente uma ligação ainda mais forte com o ensino de português. Embora esse tipo de organizações seja longe de ser fácil, devemos pensar seriamente no relançamento dessas iniciativas para o bem-estar dos nossos filhos e da ligação que estes podem ter com a nossa língua de origem. Uma colaboração e um diálogo entre as entidades competentes ( coordenação pedagógica e movimento associativo) é a base para o relançamento dessas iniciativas
Maior qualificação e formação para a nossa comunidade
Muitos dos nossos emigrantes que vieram para a Bélgica à procura de melhores condições de vida não tiveram possibilidades de seguir estudos e tirarem um curso ao seu gosto. Há algumas décadas e ainda recentemente, era muitas vezes impensável seguir estudos superiores, tendo grande parte da nossa comunidade apenas o 4°ano. Hoje em dia, há várias e diferentes possibilidades para ter um diploma melhor, proporcionando assim a hipótese de se abrir a outros mercados de trabalho com empregos de melhor qualidade e com renumerações mais interessantes. A candidatura da Lista da Comunidade observou por várias vezes a vontade de alguns membros da comunidade em querer recomeçar a estudar para adquirir mais qualificação e melhor formação profissional. Mas notou-se que a falta de enquadramento e de informação sobre essa matéria foi muitas vezes sinónimo de obstáculo. Por essa razão, propõe-se mais uma vez uma proposta baseada na promoção e divulgação de informação.
No último mês, a associação “Força Luso-Descendente” teve a iniciativa de promover o ensino recorrente e os resultados obtidos foram bem mais além do esperado. 50 Cartazes e 5 000 panfletos foram colocados e distribuídos no seio da comunidade e a Coordenação do Ensino teve um crescimento jamais tido a nível do número de adultos inscritos no ensino recorrente. O ensino recorrente permite a adultos que não tiveram a possiblidade de finalizar os estudos de o fazerem por intermédio da Embaixada, passando exames do 9°, 10°, 11° e 12° ano, tendo assim a oportunidade de obter um diploma de ensino secundário. É óbvio que esse é um desafio um pouco difícil e um acompanhamento seria recomendável. Essa função poderia ser desenvolvida pelo movimento associativo, abrindo-se dessa forma ainda mais à comunidade. Por outro lado, a Lista da Comunidade propõe também uma maior comunicação sobre a possibilidade de seguir cursos superiores, principalmente em horários nocturnos. Pode ser simplesmente a aprendizagem duma lingua estrangeira ou uma formação complementar para valorizar um currículo. Sabe-se que a motivação e a vontade existe por parte da comunidade. Com uma maior comunicação e um apoio adquado, a comunidade tem o dever de acreditar no seu real potencial para superar com brio este belo desafio.
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